A eclosão do caso Master provocou abalos no mundo político, tanto à direita quanto à esquerda, às vésperas da volta do Congresso Nacional. Na Esplanada dos Ministérios e nas fileiras bolsonaristas, há divergências sobre a estratégia ideal para o enfrentamento da crise acirrada após a constatação de envolvimento de políticos no esquema sob investigação.
Como revelado pela Folha de S. Paulo, material reunido pela Polícia Federal na primeira fase da operação Compliance Zero, que teve como alvo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, contém referências a lideranças partidárias e altas autoridades.
A tensão é suprapartidária. Enquanto, encorajado por pesquisas de opinião, o presidente Lula (PT) manifesta apoio às investigações, aliados alertam para o risco de tremores na base governista e na relação com os demais Poderes, em especial o Supremo Tribunal Federal (STF).
Até colaboradores diretos do presidente advertem para ameaças advindas da fragilização de magistrados no ano em que indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) estarão à frente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
O governo, no entanto, vem vendendo a ideia de que que as investigações devem prosseguir. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, são apontados como defensores dessa linha, que conta ainda com o apoio de Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais) e Sidônio Palmeira (Secretaria de Comunicação da Presidência).
Sobre essa estratégia, há a avaliação de que os desdobramentos do caso propiciam a consolidação da imagem de que Lula enfrenta os poderosos.
No ano passado, no entanto, Lula foi informado da relação do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), com um sócio do Master, e dos contratos do banco com o governo da Bahia. Foi tranquilizado pelo senador e pelo ministro da Casa Civil, Rui Costa, quanto aos riscos de envolvimento no esquema.
A avaliação, dentro do governo, é que o caso pode até respingar em aliados, mas atinge diretamente dirigentes do centrão e da oposição.
Isso não evita descompassos. Na terça-feira (27), em entrevista à CNN, o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), se declarou contra a instalação de uma CPI sobre o caso.
Além de ter telefonado reclamando da declaração, Gleisi afirmou, no dia seguinte, que essa não é uma decisão do governo. Já o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), se disse a favor da CPI.
Na oposição não tem sido diferente. O trânsito de Vorcaro entre dirigentes dos partidos do centrão estaria inibindo discursos contra o governo. Um dos políticos mais próximos do banqueiro, o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), submergiu. Ele atuou no Congresso em defesa de interesses do dono do Master.
Na sexta-feira (30), o PL -partido de Bolsonaro- levou às redes uma peça em que tentava atribuir a origem do escândalo ao governo. Mas, segundo relatos, a estratégia foi criticada por integrantes do partido.
Lava jato
O cálculo político do Palácio do Palácio de que Lula tem mais a ganhar com o escândalo nas próximas eleições não é unanimidade. Políticos de fora do governo têm alertado que o caso é "ecumênico", por atingir todos os Poderes.
Segundo eles, o Master tem potencial de se transformar numa nova Lava Jato, ou até pior, com a crise respingando no colo do presidente caso o aprofundamento das investigações de fraudes cheguem ao PT da Bahia via Augusto Lima, o ex-sócio de Vorcaro no Master.
Antes de Toffoli subir com o processo do Master para o STF, as investigações do Ministério Público Federal avançavam em torno da participação de Lima na negociação com o BRB (Banco de Brasília). O que chamou a atenção dos investigadores é que, mesmo tendo deixado a sociedade de Vorcaro, ele continuou participando de reuniões ao seu lado no BC.
O banqueiro baiano, preso na Operação Compliance Zero da Polícia Federal no mesmo dia de Vorcaro, aproximou-se dos governos petistas a partir de 2017, quando Rui Costa era governador, e o senador Jaques Wagner era secretário de Desenvolvimento Econômico. Segundo relatos, o senador é um dos aliados mais incomodados com a estratégia governista.
Adversários também apostam no desgaste do governo com disparos partindo da defesa de Vorcaro após reportagem da Folha de S. Paulo revelar a irritação do presidente com a conduta do ministro Toffoli na relatoria do inquérito do Master. Em conversas reservadas, Lula chegou a afirmar, em desabafos, que o ministro deveria renunciar a seu mandato na corte ou se aposentar.
A contraofensiva atingiu o governo com a revelação do encontro de Lula com Vorcaro, que contou também com a presença do presidente do BC, Gabriel Galípolo, e do ex-ministro Guido Mantega (Fazenda), então consultor do Master.
Também debilitou o governo a informação de que o Master contratou o escritório de advocacia da família do ex-ministro da Justiça de Lula Ricardo Lewandowski. Ele ficou na pasta, à qual a
Polícia Federal é subordinada, entre 1º de fevereiro de 2024 e 9 de janeiro deste ano.
O BC também virou alvo dos ataques diante de questionamentos sobre a participação do diretor de Fiscalização, Aílton de Aquino, na compra de carteiras de crédito fraudulentas pelo BRB para ajudar o Master.
O BC negou a relação, e Aquino abriu mão de seus sigilos e colocou à disposição do Ministério Público e da PF suas informações bancárias e os registros de conversas por celular.
Na oposição, o risco no radar é o de o caso atingir importantes lideranças do centrão.
A leitura em Brasília é a de que Vorcaro, com a contraofensiva, tentou mostrar que tem munição contra políticos e autoridades de todos os matizes. Em depoimento à PF, o banqueiro, ao ser questionado sobre sua relação com poderosos, aproveitou para dizer que tem "alguns amigos em todos os Poderes".
A despeito da extensa lista de pessoas influentes que faziam parte do círculo de amizades e frequentavam os luxuosos eventos patrocinados pelo Master no Brasil e no exterior, Vorcaro está se sentindo abandonado pelos amigos, segundo relatos colhidos pela reportagem.
À medida que os detalhes do esquema vêm à tona, o banqueiro virou uma personagem radioativo, do qual o mundo político quer mais é ficar distante.
Mas, apesar da escalada da tensão nos útimos dias, a expectativa é que o inquérito envolvendo políticos acabe ficando sob a responsabilidade do STF, mantendo também sob controle a disputa política entre cortes superiores, juízes e procuradores nos estados.
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