O discurso proferido por Donald Trump em Mar-a-Lago, após a captura de Nicolás Maduro, representa um dos marcos mais sombrios para a história das relações internacionais contemporâneas. Sob a ótica do Direito Internacional, estamos diante de uma ruptura total com a Carta das Nações Unidas, especificamente com o princípio da soberania dos Estados e da não-intervenção. Ao transformar um ato de guerra em um espetáculo televisivo e anunciar a gestão direta de um país soberano, Washington não apenas remove um adversário político, mas estabelece a força bruta como a única regra válida, desmantelando décadas de esforços diplomáticos globais.

Uma das violações mais graves reside na instituição de um "comitê de governança" composto por funcionários americanos, como Marco Rubio e Pete Hegseth. Juridicamente, isso configura a criação de um protetorado de fato, o que fere o direito inalienável à autodeterminação dos povos. Ao declarar que os Estados Unidos "vão governar o país" até uma transição que lhes pareça adequada, Trump ignora completamente a vontade popular venezuelana e as instituições locais, substituindo o conceito de democracia pela imposição de uma administração estrangeira sem qualquer legitimidade jurídica internacional.
O distanciamento dos ideais democráticos torna-se ainda mais evidente quando o foco do discurso se desloca da liberdade do povo para a eficiência das petroleiras. Trump foi enfático ao tratar a Venezuela como um ativo econômico subutilizado, afirmando que gigantes americanas entrarão no país para "fazer dinheiro". Essa abordagem revela que a intervenção não teve como norte o bem-estar social ou a proteção dos direitos humanos, mas sim uma operação de captura de recursos naturais, o que no Direito Internacional pode ser tipificado como um crime de agressão com fins de pilhagem econômica.
A justificativa de combate ao "narcoterrorismo" e ao tráfico de fentanil soa, na análise técnica, como uma cortina de fumaça jurídica. Dados da própria ONU e relatórios de inteligência global apontam que a Venezuela não é o epicentro da produção de opioides, que fluem majoritariamente através de outras rotas. Ao utilizar esse pretexto para autorizar ataques em larga escala e sequestrar um chefe de Estado, a administração Trump subverte o sistema jurídico global, criando uma "justiça de exceção" onde o acusador, o juiz e o executor da pena são a mesma potência militar.
Além disso, a forma como a operação foi conduzida e divulgada fere o Direito Internacional Humanitário e as Convenções de Genebra. A exibição de fotos de Maduro detido, em condições de vulnerabilidade e humilhação pública, desrespeita o tratamento digno exigido para prisioneiros e detidos políticos. Ao descrever a violência da captura como "maravilhosa" e "como assistir a um programa de TV", o discurso desumaniza as vítimas do conflito e sinaliza um desprezo perigoso pelas normas que visam limitar o sofrimento em períodos de guerra.
O impacto para a América Latina é devastador, pois o discurso de Trump enterra a ideia de que o continente é uma zona de paz e autonomia. A ameaça direta de que "o que aconteceu com Maduro pode acontecer com outros líderes" instala um regime de medo e vassalagem política na região. Em vez de promover a estabilidade, essa retórica alimenta o nacionalismo defensivo e a militarização, afastando qualquer possibilidade de cooperação regional baseada na igualdade soberana e no respeito mútuo entre as nações do sul global.
A preocupação com a infraestrutura petrolífera, citada por Trump como a razão para a permanência das tropas, ignora a crise humanitária real que o povo venezuelano enfrenta. Enquanto o presidente americano fala em "reembolso bilionário" para empresas privadas, não há menção a planos de saúde pública, segurança alimentar ou reconstrução do tecido social devastado por anos de crise e agora por bombardeios. O bem-estar do cidadão venezuelano foi relegado a um segundo plano, atrás do lucro corporativo e da garantia do fluxo energético para os Estados Unidos.
Por fim, a "Doutrina de Mar-a-Lago" sinaliza o fim da era do multilateralismo e das regras universais. Ao agir de forma unilateral e brutal, Trump deixa claro que o Direito Internacional só existe enquanto não interfere nos interesses estratégicos de Washington. Para a comunidade internacional, o desafio agora não é apenas o futuro da Venezuela, mas a sobrevivência de um sistema onde a lei proteja os pequenos contra os abusos dos grandes. Sem uma resposta firme dos organismos globais, o mundo entra em uma fase de incerteza onde a soberania nacional tornou-se um conceito obsoleto.
Wagner Ferreti é advogado e ex-presidente da Comissão de Direito Internacional da OAB/MT.
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